Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
R.I.P.
São onze e cinquenta da noite. Estou sentada no sofá em frente ao computador prestes a começar a escrever qualquer coisa que me faça sentir menos solidão nessa noite quente de primavera quando, de repente, uma abelha reluzindo seu preto-e-amarelo invade a janela, sorrateira. Droga! - pensei. Terei agora que, no vazio da minha reflexão, travar uma guerra não desejada contra a possibilidade - sim, a possibilidade - da picada. Sou alérgica, afinal. A abelha, meio tonta, zumbeteia na parede para cima e para baixo atrás da televisão. Saco. No chão, meu chinelo preto sinaliza a vontade de brigar por um instante. Pego-o. E, de arma em punhos, coloco-me entre o ventilador e a perna esticada do sofá tentando, em vão, atingir as pequenas listras que sobem e descem. Dou-lhe uma chinelada. Com a rajada de ar, a abelha se desloca em direção a janela sem, entretanto, fazer menção de se despedir. Não quero matá-la, penso. Saia. Mas ela me desafia zumbindo ainda mais alto e dando voltas embaixo da lâmpada da panela pendente, que força a minha visão em direção ao artificial sol da noite. Penso em desistir. Sento-me. Mas ela bamboleia em volta dos meus ouvidos, rente à minha face. Saco! Não poderei desistir. Assim, em pé, arma havaiana novamente em punhos, desfiro duas ou três chineladas até o golpe derradeiro. Em cima do home theater. Ela equilibra-se na quina até escorrer dramaticamente pelo hack em direção ao chão. Era uma vez uma abelha. Não queria matá-la. Mas é o fim. Na vida - merda! - um leão por dia. Não foi acidente. Não foi premeditado. Ah, destino, seu cretino infiel. Pudera eu antever os seus passos para postar-me sempre na soleira da porta, com sorriso em punho. Hoje matei uma abelha. E amanhã, o que será? Ah! Ja disse o quanto odeio quando escrevem "RIP"? Coisa escrota essa de RIP. Falta de palavras mais profundas, me parece. Coisa pra coisas sem importância. Sem querer, deixo uma lágrima cair. RIP abelhinha. Eu gosto mesmo é das coisas sem importância...
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