sábado, 20 de junho de 2009

Enquanto

Enquanto as folhas caiam no chão. Neste breve tempo, enquanto as folhas bailavam ao vento, é que tudo se deu. Percebeu um pouco depois. Não imediatamente. Mas sentiu, à flor da pele, um leve arrepio gelado. Foi tudo num segundo. Num só instante. Enquanto as folhas se desprendiam do alto e chegavam, lentas, àquela superfície molhada. Não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Ventava forte. Fazia frio. E mesmo assim; mesmo com tudo voando ao seu redor; mesmo com o vinho lhe nublando a alma; mesmo assim. O arrepio lhe percorreu a espinha, de baixo para cima, num átimo. Do lado de fora do vidro embaçado, a chuva. Sentiu-a como lágrimas, talvez suas, a se desprenderem calmamente de olhos já cansados. Já descrentes. Olhava fixamente. A janela, a taça, o palco, os olhos. Algumas notas cismando em povoar seus pensamentos. Algumas palavras. Tudo no mais perfeito silêncio. Harmonia. E de olhar, despreocupada, pro lado de fora, é que percebeu. Naquele instante. Entre o salto da folha, e sua chegada macia ao chão. Entre um gole e outro de vinho. Percebeu que o tempo passava, e que ela se ia com ele. Que estava desistindo, apesar da esperança. Percebeu que mudara. Mas foi naquele breve instante – não mais. Naquele limite tênue entre a decisão e a ação. Naquele suspiro. Foi ali que tudo se deu. Letras cantadas no tom exato, na melodia correta. Letras voando pelos ouvidos e poluindo sua alma. Naquele instante. Enquanto as folhas caiam e os olhares se cruzavam. Enquanto a música era cantada e sentida. Naquele exato instante. Nem um minuto a mais. Ela viu acontecer. Como quem assiste a um filme. E viu que não era possível voltar atrás, que aquele arrepio a lhe congelar a espinha duraria o tempo necessário de uma paixão. Tudo isso ela viu; mas sem querer. Porque não lhe foi possível fechar os olhos. Porque, mesmo se os fechasse, as imagens a povoariam por dentro, como nômades a vagar. Não pôde conter, embora tentasse. Mas naquele instante; naquele breve instante; teve certeza de si. Viu-se em olhos alheios, perdida em palavras escritas por outros dedos; em canções de um amor tardio. Viu-se sorrindo de dor e chorando de prazer num futuro que custava a chegar. Viu-se. Como nunca havia se visto em outros olhos. Num instante fugaz, entre a janela e o microfone. Entre a boca, e os ouvidos. Enquanto tudo, as folhas. Sempre as folhas. Bailando, lentas, o compasso da ilusão. Voando suaves por entre olhos estranhos. Tentou evitar, mas não pôde. Teve a sensação de que o tempo acelerava, enquanto ela ficava para trás. Estava parada. Completamente paralisada. Enquanto as folhas caiam, e a música lhe acariciava os ouvidos. Enquanto o vinho corava suas entranhas, ferino. Desviou o olhar, insistente, mas aqueles olhos continuavam ali. Em algum lugar, dentro. E, naquele instante, teve certeza que o inverno jamais chegaria. Que ela continuaria acorrentada às grades daquele outono chuvoso. À lareira, ao cachecol, e àquele sorriso melancólico, contido num instante de olhar.

Um comentário:

Marcela Sena disse...

sem imaginar você escreve um texto para mim, exatamente como estou. Sozinha com uma garrafa de vinho... todas as sensações e verdade! Inacreditavel, próximo e fraterno. agora sim, posso dizer que sinto um pouco menos de saudade... voce veio ate minha casa e me viu em letras, em melodica melancolica, em verdade.

obrigada por me fazer ficar em silêncio.

um beijo com muito amor.