quinta-feira, 3 de julho de 2008

A beleza de se emputecer

Hoje me emputeci. Me emputeci como há tempos não me emputecia. Não sei se vocês entendem exatamente o que quero dizer com isso. Não, me emputecer não tem nada a ver com ter raiva de alguém, ou com qualquer outro sentimento ruim em relação a alguma coisa. Emputecer-se, nesse caso, significa tomar uma atitude. É que às vezes a vida faz corpo mole. Vagaroseia. E quando isso acontece, a gente, normalmente, aceita. Espera. Mas hoje, ao contrário, me emputeci. E resolvi escrever o destino com meus próprios punhos. A bico de pena. Saí linda e loira, caminhando pela estrada que eu mesma desenhei. Hoje fui a uma agência que deveria ter ido há muito tempo. Mas que achava desnecessário. Pois fui lá. Entrei como se estivesse sendo esperada. A coluna ereta, a cabeça erguida. Conversei com a convicção que tenho dentro, mas que disfarço por fora. Hoje fui eu, não me escondi. Não sei se vai dar algum resultado. Mas fiz o que tinha que fazer. Saí de lá, e a atitude óbvia seria voltar para casa. Mas hoje eu estava emputecida, e fugi delicadamente do óbvio. Parei no Leblon. Resolvi passear. Caminhei pelas ruas como quem tem milhares de amigos ao redor. Estava sozinha. Fui ao shopping, entrei em lojas, experimentei roupas. Comprei uma blusa – gastei um dinheiro que não tinha e que, portanto, não poderia gastar. E fiquei satisfeitíssima. Resolvi passear mais. Outro shopping. Liguei pra um amigo. Andei pelas ruas. E descobri que me emputecer trouxe ao meu rosto uma beleza de dentro. Ao corpo todo, na verdade. Nunca fui tão notada. Devia ter algum sorriso misterioso, não sei. O fato é que chamei atenção. Sozinha. Jeans e camiseta pelas ruas do Leblon. Olhei vitrines. Olhei pessoas. Emputecer-se traz também outro olhar. Olhei as mesmas coisas de sempre com olhos que nunca tive. Desfrutei de minha própria companhia como há tempos não desfrutava. Atravessei o bairro. Observei os bares. Queria ir ao Cafeína perto da casa que o garoto de olhos azuis se hospeda, quando vem ao Rio. Caminhei. Observando e sendo observada. Cheguei. Pedi o cardápio. Resolvi inovar. Um hot fudge, por favor. Pequeno. Uma xícara de puro chocolate ao leite derretido. Não podia, a circunferência abdominal não permite. Mas hoje estava emputecida, e não quis saber. Um deleite. Um pouco sensual demais, talvez. Um prazer a cada colherada. Enquanto deliciava aquela xicarazinha, uma música me veio à cabeça. Uma que fala sobre um certo bar leblon. Versão do Alceu com a Elba. Não sei direito a letra. Mas a melodia estava lá. Terminei o chocolate. Acendi um cigarro. Aproveitei cada trago da minha companhia. Sem pressa. Obtive um prazer quase sexual. Pseudocoital, como, outrora, eu denominava. Pedi a conta. Paguei. Enquanto estava levantando, tentando me organizar entre a sacola, a bolsa e o casaco, o Alceu passou pelo Cafeína. Parou do lado da minha mesa, só pra ser simpático com o garçom. Não acredito mais em coincidências. Ele sorriu para mim. Sorri de volta. Compreendi que, quando a gente se emputece, o pensamento se torna magnético. Porque aquela melodia na cabeça? O acaso me mostrou o funcionamento das coisas. Caminhei mais um pouco pelas ruas do bairro. Peguei um ônibus para casa. Da janela, uma cidade que talvez eu nunca tivesse visto. Luminosa. Cheguei, sem muita vontade de entrar. O telefone tocou e, sentada na escada, passei a próxima meia hora. Subi. Olhei a casa também com outros olhos. Meio-amargo. Lembrei-me do chocolate. Reli o e-mail com mais um não. Queria fazer parte daquele projeto. Emputecida que estava, escrevi um resposta a ele. O natural seria aceitar. Mas fiz um apelo. Eu sei que poderia ajudar. Não sei se vai dar certo, mas sei que fiz o que tinha que fazer. Tentei mudar o curso das coisas, desenhando uma nova estrada. A estrada pela qual quero caminhar. Deveria fazer isso sempre. Mas sou fraca. Hoje não, porque me emputeci. E espero manter-me emputecida por algum tempo. Emputeçam-se. Taí outra coisa que recomendo. Emputecer-se é uma forma de auto-conhecimento. Um olhar-para-dentro-e-botar-para-fora. Um jeito de meter o bedelho naquilo que dizem que não nos diz respeito. Só nós mesmos sabemos o que nos diz ou não respeito. Hoje fiquei sozinha como há tempos não ficava. Sozinha, não solitária. Hoje fiquei sozinha e descobri que sou uma ótima companhia. A melhor. Me diverti. Sorri. E carreguei várias pessoas. Carreguei vocês, como carrego sempre. Mas hoje me levei junto. Hoje estive comigo. Hoje fui eu, disse tudo que pensava, não medi as palavras. Hoje fui só sorrisos, resgatei a minha essência. E descobri que emputecer-se, às vezes, é um modo de se acalmar. Jeans e all star. Sorriso estranho no rosto, passeando pela cidade. Andando por um caminho que eu mesma criei.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

é um sucesso ler seu destino escrito a bico de pena. larga mao de ser luxuosa. =)
gostei desse seu dia. eu amo a sua compania. me vejo cada dia mais presa a ela.
ficou forte o que eu escrevi. mas vou deixar.
nao posso me emputecer mais do que ja to. na verdade agora escrevendo para vc to tranquilissima. to bem.
ah. e o irmao deu sinal e me surpeendeu.
a vida dando sinal.

Bruno M. Bruim disse...

Bravo! :D