terça-feira, 8 de julho de 2008

Por entre os carros

Puta trânsito ruim, né? É. Barulhão da porra. Um saco. Eu fico pensando: se eu fosse ET, ia chegar aqui na terra e achar que os carros é que eram os habitantes. É... Você entende? Entendo. Puta falta de respeito, né? O que? Os carros, não ta vendo? Aquela senhora ali ta tentando atravessar há um tempão e nada. Ninguém deixa. É... (tempo) Porque você está tão calado? Sei lá, to com uma vontade da porra de ir embora. Entendo. Entende nada. Ah é, então me explica! Se eu pudesse, saía correndo agora. Correndo por entre esses carros, não ia parar nunca mais. Macunaíma. (risos) Você, hein... sempre tão engraçadinha. Eu me esforço. Há-há-há. Inconveniente. Ihhh... quer sair correndo vai, não precisa me agredir. Às vezes, eu queria que você se fudesse! Eu também quero me fuder às vezes. A maioria das vezes. Lá vem você. Ué, não posso? Foi você quem começou... Eu não estava falando disso. Não importa, eu estou. Você só pensa em putaria. Tem razão. O que? Você tem razão. Razão em quê? Quando diz que eu só penso putaria. É verdade. Não é não, eu estava só tentando te ofender. Não conseguiu, mas pelo menos disse uma verdade. Não estou te entendendo. Eu é que não estou. Você está lerdo. Eu ainda estou pensando em sair correndo. Jesus cristo, então vai. Deus te deu duas pernas pra você usá-las quando bem entender. Você não me entendeu. Eu não queria sair correndo de verdade. É apenas uma sensação. Você está muito complexo. Usou alguma droga? Talvez, eu não me lembro. Ah não, não acredito... Você anda dando teco sem me chamar? Não foi teco, não ta vendo? Sei lá... querendo correr aí sem parar! Você não está entendendo nada. Ai que saco! Já é a quinta vez que você fala isso. Por que que ao invés de você reclamar, você não me explica. To sem vontade. Sem vontade de quê? De falar, sei lá. Sair correndo você quer? Deixa de ser chata! Eu sempre fui chata. E você sempre gostou. Mas hoje estou sem saco. É mesmo? Você guardou seu saco onde? (começa a assediá-lo) Vamos parar com isso? Ou! Ou! Pode parar. Ai meu deus... você vai ficar assim o dia todo? Não sei. E você? Vai ficar assim pelo resto da vida? Assim como? Pensando em putaria. Nunca vi... ô mulher. Homem é engraçado, né? Vive reclamando que mulher não gosta de sexo. Quando arruma uma que gosta, foge da raia! Eu não fujo da raia. Foge sim. Não fujo não. Só porque hoje eu não quero? Só porque eu sempre quero mais do que você! Peralá! Isso é mentira! É? É! Bom, é o meu modo de ver as coisas... Um modo equivocado. É mesmo? Então me prova. Provar o que? Que eu estou “equivocada”. Você sabe que está. Não sei não. Sabe sim! E vamos mudar de assunto. De pau pra caralho? Ô mulher! (ele ri. Ela se aproxima.) Repete! O quê? Esse “ô mulher”! Repete! Repete pegando aqui assim ó, e olhando no meu olho? (agarra-a e olha em seus olhos) Ô, mulher! (eles se beijam. Ela o joga na cama. Fazem sexo. De vez em quando, ele repete a frase. Terminam. Estão deitados um ao lado do outro) Ô mulher, viu? E aí, ainda quer sair correndo? Acho que não, to um pouco cansado. Vou fumar um cigarro ali na janela, quer? Não obrigado. Acho que vou cochilar. Você se incomoda? De jeito nenhum. Vou ficar aqui observando os carros. Mais tarde eu te acordo pra gente ir almoçar. (ela fuma, ele dorme. De repente, como num surto, ela coloca seu tênis e sai correndo por entre os carros. Antes, porém, escreve um bilhete: “fui comprar cigarros e já volto”. Detalhe: ela nunca mais voltou)

3 comentários:

Marcela Sena disse...

nesse texto eu mergulhei.
interinha. vivi tudo. cheguei a levantar. sair correndo.
mas me prendi nas palavras e volto para minha quente cama e sonho em um dia fazer isso.
sinceramente.
marcela

Ana disse...

Adorei!

Prós disse...

Eu vou criticar, pq é isso que faço melhor. Espero que vc aceite a crítica ao invés de dizer: "eu estou certa", como lhe é de praxe.

Eu sei que vc não quis imitar o Saramago ou qualquer coisa do gênero. Sei que vc é livre e faz a coisa do seu jeito. Assim não precisa perder tempo em responder qualquer outro blá, blá, blá pra dizer que o que vc queria fazer foi justamente isso que saiu e eu estou errado.

(É difícil se fazer entender até com quem a gente divide 50% dos genes e dezenas de anos de experiências culturais.)

Enfim...

Gosto muito desse tipo de narrativa com diálogos razoavelmente rápidos e surreais. E pra mim, o grande mestre em fazer essas coisas é o Saramago. Se eu tivesse paciência ia lá no meu blog caçar algum estudo de escrita de diálogo à la Saramago que fiz há muito tempo, como parece ser o seu texto. Claro que não é, mas parece.

Enfim...

Tenho a impressão que o Saramago consegue muito bem fazer esse tipo de diálogo -- e, repare, ele só usa vírgulas e maiúsculas como "sinais de pontuação" -- de uma forma que a gente sempre sabe qual personagem tá falando o quê sem se esforçar. Tanto vc neste texto quanto eu no texto que não vou procurar, não temos a mesma habilidade. Às vezes o leitor fica sem saber quem fala o quê e sentimos a vontade de reler pra ver o que é que realmente tá rolando. No Saramago, isso é natural, vc sempre sabe.

Mas é claro que vc acha melhor não saber e deve achar que o seu estilo é melhor do que o do Saramago (tadinha...) pq envolve uma questão de subjetividade que não está presente no autor português. Defenda-se dos argumentos como quiser, mas o Saramago é foda nesse tipo de diálogo e, enfim, ainda que isso possa não valer muita coisa... ele ganhou o Nobel de Literatura. Mais do que isso, os livros e os diálogos dele são espetaculares, como vc deve saber muito bem.

Bjs!