Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
domingo, 20 de julho de 2008
A morte da menina velha
Lembrou-se de uma toada triste. Uma daquelas que ouvia em seu tempo de infância. A melodia não lhe saía da cabeça. Deixou que todo seu corpo fosse permeado por aquela vibração, lentamente. Imaginou-se correndo por entre aquelas terras vermelhas, e a poeira lhe embaraçando os cabelos. Não se lembrava dos detalhes daquela vida. Não se lembra com perfeição de sua vida. Tudo era como uma colcha velha de retalhos. Cada pedaço havia sido colocado por algum querido diferente. Somente a costura ela tinha feito com as próprias mãos. Costurava os pedaços mais interessantes, coloridos. A colcha não precisava ter muita verdade, só beleza. Não serviria para abrigar ninguém do frio. Correu novamente por aquela terra rachada, até se encontrar em um imenso pasto de grama queimada. O sol destruía tudo. O gado, magro, buscava abrigo naquelas pequenas árvores do serrado. Escassas. Havia muito sal no chão. E pouca água no olhar. Sentiu-se sugada pela pobreza dos animais. De alguma forma, eles invejavam as possibilidades de invenção dela. Não conseguia, em absoluto, fazer parte daquele lugar. Colocada ali desde pequena, sempre fora um peixe sem aquário. Não havia água suficiente por ali. Não sentia pena daquela gente. Não sentia amor, nem desprezo, nem remorso. Nem indiferença sentia. Não sentia nada. Não era parte deles, e não conseguia deixar-se permear por aqueles conhecimentos e valores. Era muito pequena ainda, e tudo aquilo não passava de um vazio dentro dela. Ainda não sabia que não era dali. Apenas não conseguia participar daquele mundo. Correu por aquele pasto e além. O suor que lhe escorria pelas faces era o único vestígio de água em quilômetros. E ela, o único vestígio de vida. Sentiu-se sozinha, embora ainda fosse nova demais para ter tal sentimento. Sentiu-se oca e seca, como todo o resto. Pegou nos cabelos embaraçados de poeira e suor e imaginou-se debaixo de uma cachoeira ruidosa. Deixou-se inundar por aquele ruído, e logo estava de fato na cachoeira, alguns anos depois, abraçada a um garoto magro, desengonçado de adolescente. Viu seu corpo ainda em processo se arrepiar com o desconhecido, e o sentimento de um pequeno amor brilhar em suas bochechas rosadas. Mergulhou por entre aqueles peixinhos dourados, jogando água no menino esguio. Ele encantado: ela sereia. Havia o mar nos olhos deles. E as ondas iam e vinham em espasmos alternados. Abraçaram-se com temor, pois não sabiam conter o maremoto de seus corações. E brincaram de esquentar aquela água, da forma deles. Pueril e inocente como o rio que lhes escorria. Aos poucos a temperatura de seu corpo foi aumentando. Tanto, que se transformou em fogo. Estava lá, por trás das chamas daquela noite de inverno. Chamas contidas, represadas naquele buraco na parede. Agora sim se sentia em casa. Peles cobriam a sua pele, deixando-a mais quente que o próprio fogo. Era só ela e o vento, naquela imensidão de brancos tão iguais. Sentiu-se sozinha novamente. Ali, no topo do mundo. No cume, onde todos os pecados devem ser purgados. O quente, o frio e o medo. Todo o horror do universo mesclado em um só ponto. Sentiu-se poderosa e demonstrou seu poder. De suas mãos, um calor intenso irradiava em direção às pontas. E a água escorria, lentamente, criando sulcos na montanha de gelo. Todo o seu corpo era brasa. Vermelha e lúcida como qualquer outra razão. Pediu para que tivesse controle dos seus atos, e que pudesse revertê-los, caso fosse necessário. O desejo negado provocou-lhe ira, e aos poucos ela começou a queimar todo aquele universo. Queimou-se por dentro, transformando-se em pó. E ventou. Ventou e se levou consigo para lugares remotos. Largou a sua poeira pelo mundo e continuou-se como ar. Lambeu corpos dourados ao sol e espalhou labaredas no alto de um penhasco. Balançou folhas de árvores e escondeu papéis para nunca serem achados. Brincou como quis com as pequenas coisas, levando-as, ao acaso, pelas ruas sem fim. Entrou em corpos pelos orifícios mais absurdos, e saiu deles de maneira não desejada. E voou. Voou por tempos e espaços que não imaginava possíveis. Brincou com coisas aparentemente imóveis, e refrescou a pele de pessoas cansadas. Correu mundo de ponta a ponta até deixar-se ser sugada pela inspiração de suas próprias narinas, voltando, assim, a fazer parte completa de si. Em sua cabeça, aquela toada triste da infância. Em seu peito, o ar cansado de quem já viu tudo o que havia pra ver. Em seus olhos, o último resquício daquela chama que um dia a incendiou. No corpo, a imobilidade daquela terra seca e rachada. E na alma, a placidez do centro do mundo. A calma e a tranqüilidade do lugar no qual todas as águas, enfim, descansam.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Ai caralho! cade vc??
saiu para comprar cigarros e nao vai mais voltar!!!
aaaaaaaaah. to com saudade de vc!
bjo baunilha
Postar um comentário