Verdade seja dita: o homem criou “Deus” para justificar a existência. Tornar a vida um pouco menos pesada, criar um sentido. Nem condeno. A bem da verdade, é uma atitude inteligentíssima. Não é fácil conviver com a falta de sentido. A gente, na vida, está sempre tentando organizar. Ver as coisas com mais clareza. Separar tudo em pequenos pacotes, pra que a prateleira fique bem arrumada. É porque dentro das caixas, a bagunça já está feita. A gente gosta de manter as aparências. Esteticamente. Assim foi com a invenção de Deus. A vida tava uma bagunça. É como disse o filósofo: “se deus não existe, então tudo é permitido”. Resolveram criar regras. E para criar as regras, criaram a alegoria. Inventaram, fantasiaram, transformaram. A doutrina cristã não é nada além de um código de condutas. Um conjunto de normas no qual o individuo deve se encaixar para que seja perdoado de seus pecados na hora de sua morte. Mas é como diz também o músico: “o perdão é que possibilita o nascimento da culpa”. Criaram uma parábola com causas e conseqüências. E depois inventaram os pesos e as medidas – para cada culpa, uma pena. Tentaram, com isso, conter os mais animais ímpetos humanos. Os taxaram de cruéis, anormais, frios. Acho ótimo. Não posso negar que a batuta da religião trouxe um pouco de moral aos bárbaros. A tal culpa cristã. Mas o tiro saiu um pouco pela culatra. Não era o que queriam, mas a alegoria acabou sendo maior do que o código moral. O deus-e-o-diabo, o céu-e-o-inferno, o bem-e-o-mal acabaram sendo maiores do que o cotidiano dentro da doutrina. Pequenos pecados viraram piada, e a religião, moeda de troca: são dez ave-marias por uma trepada. Aí ficava fácil. Só os dez mandamentos é que se mantiveram mais ou menos intactos (não vou tocar na questão do adultério!). É porque neles, sua atitude em contrário prejudica o outro. E o outro é sagrado. Criado à imagem e semelhança de deus. Os sete pecados capitais se banalizaram. Incorporaram-se ao cotidiano. Não temos nem mais vergonha, ao admiti-los. Mas me sentei aqui para escrever sobre a alegoria. É ela que me interessa. Por cima das várias camadas de culpa cristã, está o céu. Paraíso perfeito, ideal buscado. Repouso eterno depois da morte em terra. Vida após a vida. Vida após a morte. É sobre isso que vim falar. Pois, a bem da verdade, o homem criou “Deus” pra justificar a existência. Justificar a vida – sem justificativa. Criou-se a idéia de que viver é um preço a se pagar. Cumprida a pena, vamos todos ser felizes em cima das nuvens. Por isso os pobres agüentam todo o peso da vida. Por isso os ricos são ateus. E assim vai-se levando. O mais miserável cristão ri de sua miséria, pois acredita que no fim, vai subir e tocar harpa. A vida após a morte cria também um comodismo social. Se é preciso pagar esse preço para ser feliz pela eternidade, pago com gosto. Comendo farinha e rapadura – pelo menos há o que comer. E os políticos todos, ao contrário, roubam e gastam sem dó. Pois crêem, convictos: finda a vida, morre também a alma, e com ela as culpas. Tratemos de pecar!
Não sei, de fato, o que ocorre depois da morte. Ninguém sabe – que isso fique bem claro. Mas acho importantíssimo o papel da religião. Acharam que eu tinha vindo aqui pra fuder com ela, não é? Ah, mas enganaram-se. Vim exaltá-la. Babo ovo da religião nesse sentido. Cá pra nós, não é todo mundo que está preparado pra saber que depois da morte, há morte. Há nada. Silêncio. Sono sem sonhos... Ia ser a convulsão do sistema. O caos, o apocalipse. Escrevo essas coisas e rio. Acho graça em tudo isso. Imaginem vocês se fosse provado que esta é nossa última chance. Nossa única. Veríamos cada coisa. Ia ser cada máscara espalhada pelo chão... e cada barbaridade contra a vida! A grande questão é que o humano, ser pensante, precisa, anseia, espera uma justificativa. Racionalmente, não acredita que todo esse circo social tenha sido armado sem nenhum propósito. Mas o propósito está claro. Coisa de biologia. O circo se arma pela perpetuação da espécie. Só ficam os mais adaptados – embora a adaptação hoje tenha muito menos a ver com a genética do que com a economia. Enfim, estou divagando. É que o fato de o céu não existir, não livra a gente do capeta. O inferno é a consciência. O paraíso é a vida. Eles não entenderam... e está tudo óbvio. O que a bíblia ensina é a massa amalgamada que é a vida na terra. Só que dividida em fatias, para melhor ilustração. E os que não entendem de gráficos ficam, bobos, crendo em camadas. E não desfrutam o bolo como deveriam. Completo.
É por essas e por outras que sou contra os fundamentalistas. Odeio crente – no sentido geral. Que o cara acredite em alguma coisa, faça dela o sentido da sua vida, vá lá. Cada um com seu cada qual. É o livre arbítrio, não quero discutir. Meu problema com os crentes é a catequese. A divulgação, o derrame, a obrigação. Porque crêem naquilo, pensam que todos precisam crer também. Que essa é a função deles. Não importa se depois da morte eles vão se deitar com as mil virgens ou pedir licença à portaria de São Pedro. Dá no mesmo. Meu problema com eles é funcional. Ou melhor, é um problema literário. Não agüento o assunto. Papo ruim. Cheio de ameaças. “Deus castiga”, “assim você vai pro inferno”, “isso não pode”, “pecado mortal”. Ai. Puta cara ruim esse deus que eles arrumaram. O cara que era pra ser do bem, compreender seus deslizes, te ajudar a achar o caminho certo, acabou se tornando um carrasco, símbolo da repressão e do medo. E isso tem é tempo... desde a Idade Média! Direito divino dos reis, lembram disso? Ótima análise, era menos velada nesse tempo: deus = déspota, tirano. Assim fica claro o sentido da religião. Não precisamos mais discutir.
Agora mudando de assunto, ia ser boa uma vidinha depois dessa morte, não é não? Mais uns minutinhos no play! Eu não creio, mas ia adorar a surpresa. Não creio, mas também não vivo cada dia como se fosse o último. Não dá pra viver. O coração não aceita a urgência. Enfarta. Somos frágeis. Temos que admitir. Somos só um pinguinho do mundo. Não sabemos nada. Vivemos na ignorância. Mas é melhor assim.
Eu tenho pena é dos crentes... foram buscar deus, e só encontraram o diabo!
4 comentários:
Caralhooooooooo.
to chocada. vou fazer disso minha biblia de cama.
maravilhoso texto. fantastico
gosto da parte de rezar e trepar. uma coisa desse tipo. vc é implacavel.
ai que orguhlo. e nao pense que so eu li. mandei uns tres lerem hj. e leram.
ei. minha essencia de baunilha. vc é foda. ih, babei mas falei.
rá!
to voltando a ficar um luxo.
pau no cu dos pelas sacos.
religiao.
religar-se a vc. sua essencia. sua fonte. sua personalidade. seu nada.
vamos nos ligar!?
precisei.
rá! to me vendo muito com vc.
adoro te ligar a mim.
nao sei se vc gosta. hum.
(um charminho amistoso)
Uma confusão comum que vc faz toda hora ao longo deste texto é confundir *moral* com *religião*.
A frase de Dostoiésvki é vista num romance, não em obra de filosofia: "se deus não existe, então tudo é permitido". Não há argumentação filosófica que sustente esta posição e esse é o tipo de frase que expressa sua confusão claramente. Não ter 'deus' é muito diferente de 'estar pouco se fodendo para tudo' ou 'viver em anarquia'.
Moral e religião são conceitos separados e não significam a mesma coisa, absolutamente. Apesar disso, grande parte das religiões formalizadas -- como o cristianismo ou o catolicismo -- tem fortes características morais ou "saco de condutas"... dizendo o que seus adeptos podem ou não podem fazer.
Mas não ter religião não é ser amoral ou imoral. A moral independe de religiões e muitos sujeitos que ganharam prêmios nobel da paz não eram nada religiosos.
A religião surgiu originalmente de um sentimento de maravilhamento pela beleza do mundo -- o sentimento do místico. Algumas vezes isso se transforma na materialização desse sentimento em uma pessoa, um deus pessoal -- que pode (ou não) estar associado a um sistema de crenças e de moral.
Este é o caso do cristianismo, mas devemos reparar que ele não é o mais comum; o cristianismo é uma exceção. A maioria das religiões primitivas são politeístas e normalmente têm como deus a manifestação da beleza, ao invés de incorporá-lo ao corpo de um homem ou alguma forma em especial.
Sei lá, tô viajando. De repente tô falando merda ou alguma coisa nada-a-ver. Bjs!
Resposta ao comentário acima, do meu irmão cabeção:
É, de fato, acho que vc viajou no comentário. No texto eu não confundo religião e moral, eu reflito/critico a “moral cristã”, que é bem diferente da ética e da moral de forma geral. O texto foi muito mais pra discutir a finitude do que a religião. Por isso a frase de Dostoievski. Talvez eu devesse tê-la colocado por completo: “se deus não existe e a alma é mortal, então tudo é permitido”, mas ela não cabia naquele momento do texto... eu teria que entrar no assunto da finitude, que só queria introduzir depois. E não quero embasamento teórico pra essa frase. Ela é como todo o texto – uma reflexão sobre a efemeridade do ser. Sobre qual conduta seguir, sabendo que o fim está cada vez mais próximo. Talvez eu não tenha sido tão clara quanto a isso. Enfim, erro meu. E, relendo o texto, entendi que dei margem à sua interpretação. Mas não quis fazer um texto cabeção. São só pensamentos perdidos. Mas há olhos de todo tipo... e talvez você tenha olhado pra dentro. Mas eu estou só divagando... enfim, é mal de família.
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