sábado, 21 de junho de 2008

Sobre a proximidade na distância (ou "A atriz e o autor")

Depois de meses, decidiu visitar aquele sítio. Engraçado os endereços eletrônicos – dados concretos que nos levam a lugares amorfos e oníricos. Enfim. Decidiu visitar aquele sítio. E encontrou por lá, estranhamente, um pedaço de si. Tinha esquecido o quanto eram parecidos. As palavras dispostas daquela maneira nada tinham a ver com ela. Mas seu sentido, o universo que continham, lhe era, sem dúvida, muito próximo. Pensou em de quantas formas diferentes as mesmas coisas podem ser ditas. Pensou mais ainda em de quantas maneiras diversas as mesmas coisas podem ser pensadas. Às vezes um casal, sentindo exatamente a mesma coisa, não consegue se expressar de maneira adequada. Os problemas de linguagem são capciosos, uma verdadeira torre de babel. Cada um ouve o que quer; e diz o que sente da maneira que pensa ser melhor. Mas o “melhor”, como sabemos, é um conceito relativo. Voltando ao que interessa: embora disposto de forma diversa, encontrou naqueles escritos pedaços de seus pensamentos mais profundos. Pensamentos que estavam guardados até então. Questionou-se sobre a possibilidade de já tê-los comentado com o dono do sítio e concluiu a impossibilidade do fato. Há meses não falava com ele. Há meses ele partira, sem sequer um abraço de adeus. Justamente como na outra vez. Engraçado como a vida fez com que das duas vezes não se despedissem. Da primeira ela, trabalhando, não conseguiu chegar a tempo. Da segunda, partiu antes dele. Dias antes. Nada de aeroporto, nem de lágrimas. Uma despedida fugaz. Um vou-ali-e-volto-já. Lembrou-se do primeiro regresso. Da ansiedade. Da mãe. Do estranhamento. É ele! – ela dizia. E a mãe: eu o reconheceria! é muito magro e leva esta barba estranha! Como sempre, ela estava certa. Era ele. O reconheceria por detrás de qualquer indumentária. Levava de fato, uma barba estranha, uns quilos a menos, e um violão a tira-colo. A mãe se emocionou, ela sorriu, ele reclamou. Criticou a nova tatuagem, como não podia deixar de ser. Agora, olhando aquele sítio, pensou o que ele acharia da tatuagem que está por vir. Outra? – o imaginou dizendo. Não, ele não aprovaria. A não ser que ela tatuasse uma clave-de-sol! Riu de seu próprio pensamento. Ele se enfureceria com esse comentário. Lembrou da prima da clave-de-sol horrorosa. Era mesmo uma clave-de-sol? Era mesmo de péssimo gosto! Pensou se a prima ficaria ofendida se dissesse. Ela adorava a prima. Mas enfim, gosto há para tudo. Sentiu saudades da prima. Pensou no primo pouco intimo dela e muito íntimo dele, que agora morava mais perto do que nunca. Se perguntou a respeito do mecanismo que aproxima as pessoas. Se perguntou, mas não soube se responder. Sorriu novamente imaginando a crítica dele. Inseriu – cuidadosamente – mais um erro gramatical para provocá-lo. São erros estilísticos – ensaiou sua resposta. Ela adorava quebrar regras. Não por anarquia. Mas por adequação. Nada como uma regra bem adequada à nos. Pensou em seu ateísmo. Queria poder conversar com ele a respeito de suas novas experiências espirituais. Ela, que não acreditava em nada. Ele, que teimava em não acreditar. Sempre foi super medrosa – nunca foi às urucas com a mãe. E agora, de repente, via-se mergulhada em ondas coloridas e fotografias amareladas e vozes ao pé do ouvido. Difícil explicar a mudança. Mais difícil ainda era afastá-la. O sorriso de deboche dele encheu a sala, e ela se sentiu confortável. Precisava concordar com ele. Ao contrário da aceitação familiar, sua razão tendia às linhas daquele sítio. Cético.

Leu com impaciência tudo o que lhe podia interessar. O acesso àqueles escritos lhe perturbava. Tudo lhe dava a impressão de um texto mal escrito. Não que não houvesse qualidade literária – muito pelo contrário. É que estranhamente, tudo o que brotava daquele fundo neutro poderia ter sido escrito por seus próprios dedos, mas de maneira diferente. A vontade de moldá-los se fazia inquietante e absurda. Pensou que talvez vivesse dentro dele. Ou que ele vivesse dentro dela. Devia haver alguma explicação genética. Ou literária. Ou divina. Riu-se novamente. Ele adorava botar os assuntos de deus à prova. Isso mesmo, um deus com letra minúscula: sem tanto prestígio e poder. Pensou na repreensão da mãe: DEUS castiga! – esse sim com todas as maiúsculas. Pensou em seu próprio deus. Grego, lindo. A passear pela Europa sobre suas pernas de mortal. Estava inventando uma paixão. Já a havia inventado antes, mas não lhe dera muito crédito. Agora, com a distância, alimentava novamente as chamas daquele dragão. Só esperava vê-lo pegar fogo no final – ela nunca foi dada às paixões do tipo “braseiro”. Lembrou daquele ex-namorado mooorno, também a passear pela Europa, e sentiu uma pontinha de preguiça. Quanta lenha precisaria ele para começar a esquentar sozinho? Sentiu pena, mas sorriu de novo. No fundo tinha se divertido com ele. Pelo menos naquele dia 1º de janeiro, naqueles 43ºC, naquelas toalhas molhadas e naqueles tetos porteños. Ela sempre dava um jeito de se divertir. E de sofrer. Concluiu que não estava sofrendo agora. Pelo menos não de fato. Procurava motivos estranhos para se enfadar. Mas não conseguia mais do que um cansaço triste. Não era sofrimento. Pensou naquele colega de cena, e na conversa que teriam antes da gravação. Como ela gostava dele! De maneira estranha, mas gostava. Pensou como o autor dos escritos desprezaria seus pensamentos, se os soubesse. Pensou em Saramago, em Beckett e em Iñarritu. Pensou na sua própria loucura e em como conseguiria mergulhar em seus sentimentos. Pensou novamente em seu deus grego – por que é que ele não lhe saía da cabeça? Pensou no autor. No querido autor. Tão longe e sempre tão perto. Concluiu que teria que se acostumar. Nascera para viver a perda dele. Um amor fraterno nunca realizado: de perto o silêncio; de longe a saudade. Verteu uma lágrima. Tímida. Linda. E sorriu, desconectando-se daquele universo intangível. Amorfo e onírico. Ela ainda visitaria aquele sítio pessoalmente – talvez acompanhada do deus grego – assim que um próximo verão chegasse...

2 comentários:

Marcela Sena disse...

em seus textos vc relata cada pedacinho de vc! sutilmente escondida!
ah menina, como é interessante ler!
eu ate me achei ali... ou pelo menos quis que tivesse sido eu! hehehee
mas otimo. tambem amo vc! um amor legal e novo! de boa amigairma futura!

rá!

Marcela Sena disse...

eu falei o texto errado.
leia o texto " fofo" do mes de maio!
esse que foi bem na epoca separativa entre o sujeito e o verbo!

bjo no ombro