sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tu

Acordei com o cheiro suave de terra molhada e o gosto salgado de lágrimas frescas. Chuva no tempo e na alma. Por dentro, uma tranqüilidade inquieta, que teima em anunciar algum grande acontecimento. Em vão. O dia passou e as gotas secaram. Agora, só resta a espera. Em algum lugar, nuvens se reúnem anunciando uma tempestade. O corpo se incomoda. Nenhum rastro de esperança ou dor. Nenhuma vontade surpreendente ou expectativa fundamentada. O que há é vento, uivando pelos ouvidos o som de novos tempos. Tudo incerteza. Da janela virtual, o sol desponta ao longe. Tudo uma grande irrealidade. Os sonhos se misturam nesse paraíso efêmero de sentimentos e saudades. Os acontecimentos se atropelam. Somos o silêncio e a vontade. Por dentro, as amarras vão se soltando aos poucos, deixando pequenos recalques pelo caminho. Já não me importo com o que se passa em cabeça alheia. Tenho decidido gostar um pouco mais de mim. Na desfaçatez da indiferença, um leque promissor de possibilidades. Tenho um sorriso no rosto. Disfarçado entre a chuva, é verdade. Mas ele insiste em aparecer. Tenho parecido invisível aos outros. Mas planto sementes carinhosas que, com algum cuidado, renderão bons frutos. Tenho planejado aparições despretensiosas e sonhos palpáveis. Vou me escondendo do cotidiano. Na cabeça dele, sei, ainda há algo de misterioso, uma interrogação. Na minha, reticências. Não consegui ainda penetrar universo tão distante. Mas caminho lenta, com o cheiro suave de terra molhada a invadir meus sentidos. Transbordo pelos olhos. Alguma coisa que não me parece palpável cisma em soprar canções aos meus ouvidos. O que tenho pensado é música. Preta. Por enquanto, apenas os poros abertos e a pele atenta. Quero a proximidade do calor. Por enquanto, apenas esse meu canto, perdido no espaço, esperando ecoar. Não sei se há ouvidos para a minha voz. Não sei se alcanço o sorriso que eu quero agarrar. Sei que os dias passam sedentos, e o que era para esmorecer cresce lento e contínuo, como praga a enraizar-se nas veias. Falo bobagem, penso besteiras. Mas solto meu grito neste mar de letras. Rio engraçada do sorriso que atravessa esta tela. Eu também estou aí. No olho de quem lê. Nos seus olhos, meu foco, embora você ainda duvide. Não se sinta convencido, apenas solte sua voz. No mar, hoje a noite. Amanhã em mim. E não pense em descaso. Viajo, por isso não fui. Semana que vem estou de volta, e ficarei feliz em aparecer. Se você deixar. Se você quiser. A primeira nota foi minha. No caso, a segunda. Mas não entendo nada de melodias. Apenas de enredos. Escreva seu personagem. Eu, hoje, já decidi o que encenar. E te convido, ainda um pouco sem graça, a subir no meu palco. Seja bem vindo ao meu drama. Ainda temos muito o que criar.

2 comentários:

Alma da Lua disse...

Lindo...lindo...sempre lindo o que tu escreves...

Marcela Sena disse...

gostoso esse convite. sinto-me proxima!!!